Guardo muita coisa. É quase como se fosse o sótão de alguma avó muito sentimental; do tipo que guarda uma lembrança de cada dia de sua vida e da de cada filho, neto e bisneto. Meu sótão vive em partes, despedaçando, por entre meus medos e por entre meus dedos. As caixas de fotos empoeiradas são as imagens que eu guardei da gente; que assim como a caixa, precisam de um esfregão para que a poeira saia e tudo fique mais claro. As tábuas soltas do chão, que nos fazem tropeçar, são as brigas, os gritos, o pranto. O cheiro de mofo, que nessa analogia pode não parecer agradável mas juro que é, é o teu cheiro familiar, que eu sei que sempre vou encontrar no meu pequeno grande sótão. E aquele poltrona velha, tão confortável, sempre coberta por um lençol para que não pegue pó... Ah, a poltrona é o teu abraço! O abraço que por mais que permaneça embaixo do lençol por um bom tempo, eu sempre saberei que está no sótão para eu me aninhar.
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