Já se passaram tantos meses desde o nosso primeiro "encontro". Encontro entre aspas pois pela palavra "encontro", as pessoas deduzem um jantar romântico, ir ao cinema juntos, juras de amor. Prefiro muito mais o que foi o nosso primeiro encontro, talvez eu prefira exatamente por ser contigo. Já faziam o quê? Uns três meses que nos falávamos mesmo? Acho que sim. Começarei as confissões.
Uns dois dias antes de eu ir para aí, você tinha dito que era melhor que fossemos somente amigos; concordei, ser amiga tua seria muito melhor do que não ser nada. Confesso que fiquei surpresa, e nervosa, que aceitou que nos víssemos. Lembro bem, foi numa sexta-feita quente, e com medo de me perder, marquei um táxi. O taxista chegou e eu estava ajudando a Lua a cortar cebolas, nem tinha me arrumado ainda; tive que fazê-lo numa pressa desgraçada. No táxi, o taxista tentava puxar papo, eu respondia distraidamente em meio às mensagens que trocava contigo. Sabendo que o tão ansiado momento no qual eu iria finalmente te ver, talvez te tocar, com sorte sentir teu cheiro, acho que umas lágrimas fugiram dos meus olhos; acho não, tenho certeza, lembro bem disso – eu estava no Morro das Sete Voltas. Não bastava eu estar atrasada, o taxista "se perdeu" ao tentar me ajudar, ao invés de me deixar onde tínhamos marcado – lugar que nem eu sabia explicar direito –, entrou no shopping, e eu estava perdida no meio do estacionamento; ele deu uma volta toda e paramos no lugar certo. Meu coração estava pulando, pulando, pulando. Cheguei, te mandei uma mensagem avisando que tinha chegado, como tinha me pedido para fazer. Você ainda não estava lá, estava na livraria, pelo que tinha me dito. Fui ao banheiro checar se as lágrimas fujonas tinham feito muito estrago. Você me mandou uma mensagem me perguntando onde eu estava, respondi que já ia. O caminho entre a porta do banheiro e o banquinho no qual combinamos de nos encontrar era imenso; parecia imenso. Cada passo dava uma agonia e, confesso, uma vontadezinha de sair correndo. Por outro lado, parecia uma coisa normal, "marquei de encontrar um amigo, que eu sempre via, no shopping". E era isso de certa forma. Droga, acho que acabei de empacar... Não sei como escrever sobre o momento que eu te vi sentado no banco. Lembro bem da sensação, estou a sentindo. O impulso de parar lá onde eu estava, a uns dez passos de você. Lembro perfeitamente bem que eu não tinha a menor idéia do que fazer, do que falar, de como te cumprimentar; um beijo na bochecha, dois beijos, um abraço ou o quê? Você levantou devagar quando me viu chegando, e diminuiu ainda mais o número de passos que eu tinha sobrando. Você não vai admitir isso, ou mesmo sequer faz idéia disso, mas você sorriu com os olhos; acho que isso me trouxe um pouco de tranqüilidade. Te agradeço eternamente por acabar com o meu dilema e ter me abraçado, senão eu possivelmente daria apenas um sorrisinho sem graça. Desculpa, eu realmente estava nervosa. Confesso que não sei o que falamos... Eu devo ter dito "oi", isso é bem a minha cara. Na verdade, se bem me lembro, você disse "como você é baixinha!" em meio ao nosso abraço. Saímos do shopping quase que imediatamente, para ir ao Horto; acendi um cigarro. Lembro exatamente do caminho. No longo caminho que levava ao Horto, você atravessou a rua inúmeras vezes; e só com isso, eu já estava encantada. Realmente não me lembro do que falávamos; com certeza eram coisas banais que falaríamos qualquer e todos os dias. Chegando lá, passamos pelos crocodilos/jacarés (nunca soube o que eram), coelhos, porquinhos-da-Índia, tartarugas... Paramos no banco, de frente pro lado, do lado da árvore espinhenta; eu sentei e você, não. Fumávamos e você me contava de como o sobrinho da Amanda tinha enfiado um daqueles espinhos na tua mão. Tudo já estava natural, tirando o fato que eu estava fascinada e me contendo para não te abraçar. A tarde foi basicamente assim até que fomos para a parte só de grama, que fica ao lado. Íamos nos sentar na grama quando eu resmunguei para mim mesma que minhas pernas ficariam coçando depois, e você me ofereceu o seu casaco, coisa que eu achei adorável e não tinha como aceitar. Sentamo-nos e eu fiquei brincando com seu casaco enquanto conversávamos. Decidimos mudar de lugar e ir ao parquinho; no caminho, lembro que na "jaula" dos coelhos tinha um buraquinho – que você disse que a Amanda tinha feito para poder passar a mão – e você passou a mão no coelho que estava mais próximo. Eu já estava completamente apaixonada. Fomos ao banheiro, e depois aos balanços do parquinho. Tirei uma Polaroid sua; você se virou, é claro; você me mostrou o palco e a parte de trás dele. Me mostrou uns rabiscos de nomes; fiquei com inveja e ciúme das incontáveis pessoas que já estiveram lá com você. Vimos miquinhos, crianças no balanço, e eu falei como seria interessante se a criança caísse. Não muito depois, fomos embora; meu coração já estava pesando... Minha sorte era que o caminho era longo; fomos por um diferente do de ida. Lembro que era numa avenida grande, muitos carros, tinha cheiro de plantas e cavalos. Você ia me levar até o ponto de táxi pois não queria que eu me perdesse. Em certo ponto, já quase chegando no ponto de táxi, a Helô me ligou. Ela queria falar com você, e você só fugia. Foi bom que fugiu, sabia? Me deu a desculpa de poder segurar seu braço e não mais soltar. Ainda falando com a Helô, ela disse que me faria perguntas, as quais pudessem ser respondidas com apenas "sim" ou "não" pois ela estava curiosa. "Ele é legal?", "sim"; "achou ele bonito?", "sim"; você ainda ama ele?", "sim". E ela quis te fazer as mesmas perguntas, mas como você não quis atender, ela resolveu perguntar para mim. "Ele te achou legal?", "não sei", ele te achou bonita?", "acho que não"; "ele ainda te ama?", acho que não". Logo após, desligamos. Já estávamos há um tempo na frente do ponto de táxi e você tinha que voltar; estava começando a escurecer de qualquer forma. Confesso que tinha certeza que você não tinha gostado de mim, nem como amiga, que eu nunca mais te veria. Mas eu estava feliz que tinha o visto. Atravessamos a rua e chegamos onde os táxis estavam. De novo, eu não sabia o que fazer; como me despedir. De novo, você facilitou tudo e me abraçou... E ah! Esse tinha sido o melhor abraço da minha vida – só perdeu para os futuros abraços que você me deu –, e prometo que estou julgando imparcialmente; ele durou tanto tempo e tão pouco tempo... Você me esperou entrar no táxi e enquanto ele começava a andar, eu te via desaparecer para dentro do shopping. Foi inevitável, comecei a chorar de levinho no táxi, tive que me controlar muito para ser "só" isso. Voltando para casa, a Lua ainda não tinha chegado do seu passeio solitário; eu estava na rede, repassando tudo que tinha acontecido, deixando uma lágrima teimosa escapar de vez em quando. Assim que ela chegou, e perguntou, contei a ela como tinha sido, e eu já não conseguia mais conter meu choro, pobre dele. Você sabe que sou chorona. Lembro que você me mandou uma mensagem dizendo que meu cheiro estava no seu casaco, fiquei muito feliz por isso. Se eu nunca mais te visse, meu cheiro estaria por perto por mais um tempinho pelo menos. Bem mais tarde, nessa mesma noite, te contei do mini-questionário que a Helô queria te fazer, e você pediu que eu o fizesse a você. Você respondeu. E confesso que fiquei muito feliz e chocada e surpresa pela sua resposta à última pergunta ter sido "sim".
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